#prontofalei – Sérgio Moro foi fiel aos seus princípios

O ex-juiz Sérgio Moro não é mais o ministro da Justiça e Segurança Pública. Oficialmente ele pediu demissão, mas na verdade Moro foi expulso do governo do presidente Jair Bolsonaro, que descumpriu o compromisso feito com o ex-juiz de carta branca no ministério. Quando Sérgio Moro foi convidado por Bolsonaro para compor o seu ministério, logo após as eleições de 2018, eu alertei que a melhor decisão seria o então juiz recusar o convite e aguardar a chegada de 2020, já que o ministro Celso de Mello tem que deixar o Supremo Tribunal Federal (STF) neste ano.

 

Devido ao grande apelo popular a seu favor, Moro certamente seria indicado para o lugar do decano do STF. Ele daria mais credibilidade ao STF e seria uma voz forte a favor da Justiça dentro do tribunal. Enquanto isso, ele continuaria o seu trabalho normalmente em Curitiba com a Operação Lava Jato. A ida de Moro para o Governo Bolsonaro foi ótima para o presidente e péssima para o combate à corrupção em nosso país. Antes, como juiz, ele tinha a caneta na mão e tomava suas decisões, que até poderiam ser modificadas depois em instâncias superiores. Como ministro, Moro teve que tratar com as ratazanas de Brasília na tentativa de aprovar o seu pacote anticrime.

 

No dia em que Sérgio Moro aceitou o convite para compor a sua equipe de governo, Bolsonaro disse que o ex-juiz teria carta branca para o combate à corrupção e ao crime organizado. O presidente disse ainda que não teria influência em nenhum cargo do ministério. Moro assumiu a pasta e nomeou quem quis, inclusive o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Porém, Bolsonaro não cumpriu o que combinou com Moro e desde o ano passado tentava demitir Valeixo. O presidente não apresentou nenhuma justificativa plausível para a demissão do diretor-geral, nem para Sérgio Moro e nem para o país no confuso pronunciamento que fez após a demissão do ex-juiz.

 

Bolsonaro sabia muito bem que ao tentar interferir no comando da Polícia Federal com a demissão de Valeixo estaria forçando a saída de Sérgio Moro. Dizer que Moro abandonou o barco é uma inverdade. Ele foi obrigado a pedir demissão. O ex-juiz se mostrou fiel aos seus princípios quando não aceitou interferência política na Polícia Federal. Existem investigações em curso sobre a criação de fake news que podem envolver os filhos do presidente. A insistência injustificada de Bolsonaro em mudar o diretor-geral para colocar alguém mais próximo dele é, no mínimo, estranha neste momento.

 

Sérgio Moro fez acusações ao presidente. O STF autorizou a instauração de um inquérito para apurá-las. Bolsonaro diz que o ex-juiz mentiu. E agora? A extrema-direita rebaixou Moro de herói a vilão. A esquerda vibra com a queda do ex-juiz que prendeu Lula. Os corruptos do colarinho branco e seus advogados comemoram a saída de Moro. Alguns juízes que sempre tiveram dor de cotovelo do ex-colega tentam desmerecê-lo. Já as pessoas que não se deixam levar por paixões políticas ou outros interesses estão tristes com tudo o que aconteceu e aguardam o desenrolar das investigações.

 

O nome de Sérgio Moro está escrito na História do Brasil. Isso ninguém apaga. E ao não aceitar interferência política no comando da Polícia Federal, ele mostrou a sua dignidade. Moro abriu mão de 22 anos de magistratura para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública, onde ficou por 512 dias. Muitos acham que seria mais fácil para Moro engolir o sapo da demissão de Valeixo e esperar a sua nomeação para o STF no segundo semestre. Seria mais fácil realmente para aqueles que não têm caráter. Não é o caso do ex-juiz que comandou a maior operação de combate à corrupção do mundo.

 

Pode até não parecer, mas ainda existe muita gente sensata em nosso país. Pessoas que estão incrédulas com tudo o que está acontecendo em Brasília justamente em um momento onde todas as atenções deveriam estar voltadas exclusivamente para a pandemia do novo coronavírus. Mesmo perdendo espaço nos noticiários para as polêmicas políticas produzidas em Brasília, a Covid-19 continua matando os brasileiros e ainda não existe vacina contra o vírus. Todo cuidado é pouco. #ObrigadoSérgioMoro

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3812 do jornal Correio de Araxá em 2 de maio de 2020

 

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