#prontofalei – Democracia agredida em Araxá

Esta é a primeira coluna de 2020. E vou começar o ano repudiando um fato lamentável ocorrido em Araxá na noite da última segunda-feira, 27 de janeiro. O repórter policial Willian Tardelli foi agredido em frente ao presídio da cidade por um policial penal quando se preparava para finalizar uma reportagem sobre a fuga de um presidiário que estava no fórum para uma audiência de custódia. O fugitivo já tinha sido recapturado pela Polícia Militar. Tardelli, que já tinha feito uma transmissão ao vivo no Facebook com informações sobre a fuga, aguardava a chegada dos policiais para entrevistá-los. O policial penal que agrediu o repórter participava da escolta do presidiário que fugiu do fórum. Ele participou das diligências realizadas para tentar localizar o fugitivo e retornou ao presídio quando o rapaz foi recapturado pela PM.

 

Willian Tardelli registrou um boletim de ocorrência sobre a agressão que sofreu e no dia seguinte falou sobre o caso em seu programa semanal na Rádio Cidade FM, o Comando 94. O repórter relatou no boletim de ocorrência que o policial penal lhe encarou ao chegar no presídio para tentar lhe intimidar e isto gerou uma discussão entre eles. Ainda segundo Tardelli, na sequência o policial penal o agrediu com um soco na boca e lhe aplicou uma gravata para tentar imobilizá-lo. Policiais militares e penais que testemunharam os fatos interviram e cessaram a agressão. Consta no boletim de ocorrência que o repórter sofreu um pequeno corte na boca e a sua câmera fotográfica foi danificada.

 

Já a versão dada pelo policial penal para a PM é que ao chegar ao presídio o repórter lhe perguntou se ele estava o encarando para intimidá-lo. O policial penal alegou que se sentiu desacatado pelo repórter durante a discussão entre eles e por isto o agarrou pelo pescoço para imobilizá-lo e prendê-lo. Após a intervenção dos policiais militares e penais, ele decidiu não efetuar a prisão do repórter. Para quem está se perguntando o que é um policial penal, eu explico. Policial penal é o agente penitenciário. A Polícia Penal foi criada por meio de emenda constitucional promulgada em dezembro de 2019. Essa emenda criou as Polícias Penais federal, dos estados e do Distrito Federal. Os agentes penitenciários passaram à categoria de policiais penais. As funções, no entanto, continuam as mesmas que já eram exercidas por eles.

 

Na quarta-feira, 29 de janeiro, a TV Integração, afiliada da TV Globo, noticiou a agressão sofrida pelo repórter Willian Tardelli e ouviu a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), que é a responsável pelos presídios de Minas Gerais. A presidente da Fenaj, Maria José Braga, disse à TV que se solidariza com o repórter agredido e condena a agressão física cometida por um agente público. Já a Sejusp declarou, por meio de nota, que o fato está sendo apurado por meio de uma sindicância administrativa e ainda destacou que reconhece a importância da atividade jornalística e não compactua com qualquer ato de violência.

 

A Associação da Imprensa Araxaense (AIA) emitiu uma nota repudiando e condenando a truculência do agente público contra um profissional de imprensa. A associação solicitou à Sejusp que o processo administrativo aberto para investigar a agressão seja realizado com o máximo esmero. Ainda diz a nota da AIA: “A imprensa é a voz da sociedade e vem, todos os dias, sendo agredida, vilipendiada e menosprezada por diversas esferas da sociedade. É inadmissível que qualquer agente público, profissional, trabalhador, ou seja, quem for tente cercear a atuação legal do jornalista”. A associação encerra a nota se solidarizando com o Willian Tardelli. No e-mail enviado aos veículos de comunicação, contendo a nota de repúdio, o presidente da AIA, jornalista Caio Ranieri, destacou: A imprensa é livre e representa a voz da sociedade”.

 

Como escrevi no início, este é um fato lamentável. Eu não poderia me omitir, jamais, diante de uma agressão sofrida por um companheiro de imprensa. É inadmissível que um repórter no exercício da sua atividade profissional seja agredido por um agente da área de segurança pública. Tenho respeito e admiração pelos policiais penais que atuam em Araxá e não vou generalizar, pois tenho certeza que a repugnante atitude do agressor não representa o bom trabalho exercido por seus colegas de profissão. Mas este agente público que agrediu um profissional de imprensa precisa repensar os seus atos urgentemente. O repórter apenas noticiou a fuga. Tardelli cumpriu a sua função de informar a população. Ele não é o culpado pela fuga do presidiário.

 

A liberdade de imprensa é essencial para a sobrevivência da nossa jovem democracia. Essa absurda agressão a um profissional da imprensa não cabe em um Estado Democrático de Direito. A democracia foi agredida em Araxá nesta semana. Isto é muito sério. A imprensa aqui da nossa cidade sempre foi parceira dos órgãos de segurança pública. Uma oficial da Polícia Militar deixou isso claro em um comentário postado nesta semana em uma rede social: “A Polícia Militar e a Polícia Civil estão na cidade há muitos anos e sempre foram parceiras da imprensa, até porque em tudo que solicitamos sempre estão dispostos a nos ajudar”. E é isso mesmo. Essa parceria é em prol da comunidade. A divulgação das ações, das dicas e do trabalho das polícias é uma maneira da imprensa contribuir com a segurança pública de Araxá.

 

Diante deste atentado à democracia, gostaria mais uma vez de me solidarizar publicamente com o repórter Willian Tardelli, pois já o fiz nesta semana nas redes sociais. O jornalismo policial não é fácil. Atuei alguns anos na área. Tardelli realiza um trabalho na cobertura policial que eu nunca vi em Araxá nestes meus quase 18 anos de atuação na imprensa. O trabalho dele é muito importante para a nossa comunidade e sempre é feito com muito respeito a todas as partes envolvidas nas ocorrências. Que ele continue realizando o seu trabalho e nunca se deixe intimidar por quem quer que seja, afinal o seu público merece ser sempre bem informado. Viva a democracia! #LiberdadeDeImprensa

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3799 do Correio de Araxá em 1º de fevereiro de 2020

 

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