#prontofalei – A rodovia da morte

43Cinco jovens da cidade de Campos Altos perderam a vida no último sábado, dia 16, após o veículo em que estavam perder o controle, invadir a contramão e bater de frente com um ônibus. Na terça-feira, dia 19, um homem de 51 anos, natural de Rio Claro/SP, morreu após uma colisão frontal entre a picape que ele dirigia e um caminhão. Esses dois acidentes que resultaram em seis pessoas mortas tiveram o mesmo palco: a BR-262, que está sendo chamada de rodovia da morte. Escrevi aqui sobre a BR-262 na edição do Correio de Araxá de 14 de setembro deste ano e fiz o seguinte questionamento: “Quantas pessoas mais precisam morrer nessa rodovia para que seja tomada alguma providência?”. Nada foi feito e as mortes na 262 continuam.

 

Escrevi sobre essa rodovia em setembro porque no dia 8 daquele mês uma jovem médica da cidade de Pratinha morreu dois dias antes de completar 30 anos de idade em uma colisão frontal entre o veículo que ela dirigia e uma carreta na BR-262. Ela era bastante conhecida em Araxá, pois trabalhava na Unidade de Pronto Atendimento (UPA), e também era médica do suporte avançado da Triunfo Concebra, a concessionária que administra essa rodovia desde 2014. A jovem médica foi mais uma vítima da rodovia da morte e eu afirmei aqui que a Triunfo Concebra tem sangue nas mãos e deve ser severamente punida por isto no rigor da lei. Continuo com esta mesma opinião.

 

O Governo Federal realizou em 2013 o leilão de concessão da BR-262 e a vencedora foi a concessionária Triunfo Concebra, que assumiu em contrato o compromisso de duplicar o trecho da rodovia compreendido entre Campo Florido e Nova Serrana. Porém, a concessionária duplicou apenas o trecho entre Campo Florido e Uberaba, pois o contrato previa que para o início da cobrança de pedágio era necessária a duplicação de 10% do total. A duplicação do restante do trecho, entre Uberaba e Nova Serrana, deveria ser concluída em junho deste ano, o que não aconteceu. A Triunfo Concebra duplicou em cinco anos apenas 12% do total previsto no contrato, mas desde 2014 cobra pedágio dos veículos que trafegam pela BR-262.

 

Após a tragédia que matou os cinco jovens de Campos Altos, sendo dois deles irmãos, a concessionária alegou que ainda não duplicou o trecho entre Uberaba e Nova Serrana porque não houve a liberação do financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), conforme consta no edital do leilão de concessão da BR-262. Já o BNDES informou que em 2014 liberou R$ 1 bilhão para a concessionária realizar os investimentos iniciais na rodovia, porém a Triunfo Concebra não pagou este financiamento. Em 2016, o BNDES aprovou um financiamento de R$ 3,6 bilhões para a duplicação do trecho entre Uberaba e Nova Serrana, mas o dinheiro não foi liberado porque a concessionária já estava inadimplente com o banco por causa da dívida.

 

Se alguém passar por uma praça de pedágio da Triunfo Concebra sem pagar e arrebentar a cancela certamente sofrerá algum tipo de punição. Já a concessionária não cumpriu o que consta no contrato assinado com o Governo Federal e nada aconteceu. A Triunfo Concebra já recebeu cerca de R$ 1 bilhão de pedágio em cinco anos de cobrança na BR-262, não pagou o BNDES, não fez a duplicação prevista no contrato e ainda fica usando como desculpa o fato de não ter acesso a um novo financiamento. E por caso alguém empresta dinheiro para quem está lhe devendo? Já existe uma decisão da Justiça Federal que obriga a Triunfo Concebra cumprir o contrato e fazer a duplicação. Essa decisão ainda está só no papel. A concessionária vai tentar fazer um acordo em uma reunião com o Ministério Público Federal na semana que vem.

 

Enquanto isso os usuários da BR-262 continuam expostos aos riscos causados pela incompetência da concessionária que administra a via e não cumpriu a sua obrigação de duplicá-la. O tráfego na rodovia é muito intenso. Os carros dividem espaço com caminhões, bitrens, treminhões, rodotrens e cegonheiras. Fui em Uberaba no último final de semana e senti na pele como é perigoso e cansativo trafegar por essa rodovia. Não existe nenhuma terceira faixa entre Araxá e Uberaba. Como o tráfego é intenso nos dois sentidos da via, as oportunidades de ultrapassagem são raras. Fiquei atrás de um caminhão que trafegava a 30 km/h por alguns quilômetros. Atrás de mim formou-se uma enorme fila com dezenas de veículos. E não tinha como eu ultrapassá-lo por causa do excessivo número de caminhões e automóveis trafegando na pista contrária. Foi um verdadeiro teste de paciência.

 

Muitos motoristas perdem a paciência diante dessa situação. E a impaciência se transforma em imprudência. Eu vi motoristas imprudentes realizarem ultrapassagens em locais proibidos. Vi dois veículos ultrapassando um caminhão ao mesmo tempo, sendo que um deles trafegou pelo acostamento da pista contrária. Ultrapassagens absurdas que poderiam terminar em colisões frontais. Vi também um caminhão carregado de cosméticos tombado no acostamento da pista contrária. Felizmente não vinha nenhum veículo no sentido contrário no momento do tombamento, pois caso contrário haveria mais uma colisão frontal com mortes. Trafegar neste trecho da BR-262 entre Araxá e Uberaba é um terror.

 

Centenas de jovens araxaenses vão para Uberaba todos os dias de ônibus para cursar o ensino superior. Imagino como as suas famílias devem ficar preocupadas, afinal esses jovens estão expostos aos perigos da 262 diariamente. Já passou da hora dos responsáveis pela concessionária Triunfo Concebra tomar vergonha na cara. Se eles não têm competência para fazer a duplicação, então parem de cobrar pedágio. E se devolverem a rodovia para o Governo Federal, que sejam acionados na Justiça para devolver o dinheiro que embolsaram com a cobrança de pedágio. E que esse dinheiro seja revertido em prol das famílias daqueles que perderam a vida durante o período em que essa concessionária administrou a rodovia. Do jeito que está não pode continuar. #RodoviaDaMorte262

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3789 do Correio de Araxá em 23 de novembro de 2019

 

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