#prontofalei – Quem mentiu foi o porteiro

A TV Globo foi massacrada nesta semana nas redes sociais por eleitores do presidente Jair Bolsonaro. A emissora sempre é alvo dos admiradores do presidente, mas desta vez os ataques foram em massa. Muitos dos ataques foram feitos por robôs, que são programas que postam comentários automaticamente por meio de contas falsas nas redes sociais. Esses robôs são operados por máquinas e tem como função intensificar elogios ou críticas nas redes sociais com o objetivo de influenciar as opiniões das pessoas. É óbvio que a maioria das críticas e ataques feitos contra a TV Globo foram de pessoas reais, mas os robôs atuaram para colocar lenha na fogueira.

 

O motivo dos ataques contra a TV Globo foi uma reportagem exibida pelo Jornal Nacional na última terça-feira (29/10) que revelou o depoimento do porteiro do condomínio onde Bolsonaro reside no Rio de Janeiro. O porteiro disse para a polícia em dois depoimentos que um dos acusados de matar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes tinha entrado no condomínio horas antes dos assassinatos dizendo que iria até a casa do presidente e que um homem que ele identificou como “Seu Jair” autorizou a entrada. O porteiro disse então que teria visto pelas câmeras que o homem não se dirigiu até a casa do presidente e sim a de outro suspeito do crime. Ele disse que interfonou novamente para o “Seu Jair”, que teria dito que sabia para onde o homem estaria indo.

 

A mesma reportagem mostrou que o presidente não estava no Rio de Janeiro no dia 14 de março de 2018, quando Marielle e seu motorista foram mortos. Bolsonaro, que ainda era deputado federal, estava em Brasília. O Jornal Nacional mostrou que ele registrou presença duas vezes na Câmara dos Deputados naquele dia e ainda gravou vídeos em seu gabinete para postar em suas redes sociais. Portanto, ficou claro na reportagem que o porteiro não disse a verdade nos dois depoimentos que prestou à polícia, pois o presidente não podia ter atendido o interfone da sua casa no Rio no dia dos assassinatos de Marielle e Anderson, já que estava em Brasília naquela data. O Jornal Nacional ainda informou que a polícia iria periciar os áudios gravados do interfone do condomínio para verificar com quem o porteiro falou. O advogado do presidente Bolsonaro foi entrevistado na reportagem da TV Globo.

 

Um dia depois da reportagem do Jornal Nacional ir ao ar, o Ministério Público do Rio de Janeiro anunciou que a perícia nos áudios gravados pelo interfone do condomínio concluiu que o porteiro mentiu em seus depoimentos. Foi comprovado por meio dos áudios que o porteiro interfonou na casa do outro suspeito de matar a vereadora carioca e seu motorista, que autorizou a entrada do comparsa, e não na residência de Bolsonaro. Antes do anúncio do Ministério Público, Carlos Bolsonaro, filho do presidente, já tinha ido até a administração do condomínio e gravado um vídeo mostrando o áudio do porteiro interfonando para casa do suspeito dos assassinatos. A promotora que comanda as investigações também informou que o conteúdo ainda não tinha sido anexado ao processo porque a perícia foi concluída naquele dia.

 

Desde que o Jornal Nacional exibiu a reportagem revelando os depoimentos do porteiro, a TV Globo passou a ser atacada implacavelmente nas redes sociais. O presidente Bolsonaro inflamou os seus seguidores ainda na noite de terça-feira ao fazer uma transmissão ao vivo proferindo xingamentos contra a emissora, usando palavras de baixo calão e ameaçando não renovar a concessão da Globo em 2022. Bastante exaltado durante essa transmissão, Bolsonaro esqueceu que é o presidente do Brasil. A reação intempestiva que ele teve não condiz com o cargo que ocupa. É claro que ele sabia que não autorizou ninguém a entrar no condomínio do dia dos assassinatos, pois não estava lá. Mas a própria reportagem do Jornal Nacional informou que ele estava em Brasília no dia do crime. Quem afirmou que ele atendeu o interfone foi o porteiro. Não foi a TV Globo.

 

Bolsonaro bateu muito na tecla de que o processo corre em segredo de Justiça e por isso a TV Globo não poderia ter informado nada sobre ele. Não é bem assim. Realmente a emissora não pode ter acesso a um processo que está em segredo de Justiça. Porém, a partir do momento que alguém vaza esse processo, a emissora tem o dever jornalístico de divulgá-lo se julgar que existe o interesse público. E um processo sobre assassinatos que tiveram repercussão internacional onde uma testemunha cita o nome do presidente da República é de interesse público sim. É bom frisar que veículos de comunicação e jornalistas não podem ser alcançados pelo segredo de Justiça decretado por juízes, conforme decisões recorrentes do Supremo Tribunal Federal (STF). O errado não é a emissora e sim quem vazou um processo que corre em segredo de Justiça.

 

Mas quem vazou? Até agora ninguém sabe. Bolsonaro acusa o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel. O presidente disse que Witzel lhe contou no último dia 9 de outubro que o porteiro tinha citado o nome dele durante os depoimentos e que por isto o caso teria que subir para o STF. E subiu mesmo, pois o presidente do tribunal, ministro Dias Toffoli, encaminhou o processo para a Procuradoria-Geral da República. O procurador Augusto Aras arquivou o caso um dia depois da reportagem do Jornal Nacional. O processo foi ao STF justamente pelo fato do presidente ser citado pelo porteiro. Bolsonaro fez um questionamento correto: como o governador soube do conteúdo de um processo que corre em segredo de Justiça?

 

Não sou advogado da TV Globo e nem concordo com tudo que é feito pela emissora. Mas diante dos fatos estou sem entender tantos ataques e a campanha feita nas redes sociais para que o povo não assista mais o canal. “A Globo mentiu” foi a frase que eu mais li e ouvi nesta semana. Só que até agora não consegui identificar onde está a mentira da Globo. O porteiro citou o presidente, como ele mesmo sabia desde o último dia 9 de outubro. O processo subiu mesmo ao STF. A emissora informou na reportagem do dia 29 que Bolsonaro estava em Brasília. A comprovação da mentira do porteiro só foi feita pelo Ministério Público um dia depois da reportagem. O áudio do interfone não constava no processo quando a matéria foi ao ar.  Então onde está a mentira? A Globo mentiu em que neste caso? Se alguém souber me responder peço por gentileza que me envie um e-mail. Porque, pra mim, quem mentiu mesmo foi o porteiro. #AtaquesGlobo

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3786 do Correio de Araxá em 02 de novembro de 2019

 

 

 

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