#prontofalei – Hospitais, ditadura e os especialistas de redes sociais

Os dois hospitais filantrópicos de Araxá, Santa Casa de Misericórdia e Casa do Caminho, passam por dificuldades financeiras, assim como diversas instituições do país que atendem pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Na Santa Casa os funcionários fizeram greve devido ao atraso de seus salários. Internações, cirurgias e outros serviços foram suspensos no hospital. A Prefeitura anunciou o repasse de R$ 2 milhões para socorrer a Santa Casa. A Casa do Caminho também chegou a suspender alguns serviços, que foram retomados a pedido do Ministério Público.

 

A difícil situação dos dois hospitais foi muito comentada nas redes sociais. Foi aí que percebi como existem especialistas em gestão de hospital em Araxá. Muitos apresentaram soluções para os problemas dos hospitais e criticaram os seus gestores como se realmente entendessem alguma coisa do assunto. Pessoas que não fazem a menor ideia do que estão falando, mas se sentem na obrigação de dar o seu palpite nas redes sociais de maneira irresponsável e muitas vezes denegrindo a imagem de profissionais sérios. Certamente esses tais especialistas de Facebook não sabem nem o que é SUS.

 

É muito fácil escrever qualquer besteira em redes sociais, dizer que falta gestão nos hospitais e que as instituições são um saco sem fundo. Isso qualquer irresponsável faz. Difícil mesmo é administrar um hospital que todos os meses arrecada menos do que gasta. Difícil é um hospital ter que atender pelo SUS, cuja tabela está totalmente defasada. O SUS repassa apenas 60% do valor dos procedimentos que os hospitais realizam. As instituições têm que se virar para conseguir cobrir os outros 40%. Como dinheiro não dá em árvore, os hospitais têm déficits mensais e vão acumulando dívidas. Chega uma hora que o caldo entorna.

 

Vi muita gente comentando nas redes sociais que os hospitais filantrópicos recebem ajuda do poder público e de empresas da cidade, mas que não conseguem sair do vermelho por incompetência dos seus gestores. Será que esses palpiteiros da internet sabem quanto é a despesa mensal dos hospitais e qual é o valor que eles recebem dessas ajudas esporádicas? Tenho certeza que não. Todos nós temos o direito de expressar a nossa opinião, desde que não ofendamos ninguém. Porém, para criticar determinada situação é preciso saber o que realmente está acontecendo. Quem critica sem conhecer o assunto fala besteira e faz papel de bobo. E como tem gente assim nas redes sociais.

 

Santa Casa e Casa do Caminho são instituições sérias. Os gestores desses hospitais são profissionais que não medem esforços para superar todas as dificuldades financeiras visando proporcionar o melhor atendimento possível para as pessoas que necessitam da rede pública de saúde. É injusto querer questionar a atual administração da Santa Casa por fatos ocorridos em um passado recente. O hospital é importantíssimo para a cidade e se por acaso fechasse as portas causaria um colapso na saúde pública de Araxá. Por que ao invés de conversar fiado em rede social os críticos não começam a cobrar do Governo Federal a atualização da tão defasada tabela do SUS? Isso sim aliviaria bastante a situação dos hospitais filantrópicos do Brasil.

 

As redes sociais estão lotadas de especialistas. Tem especialista para todos os gostos. Especialista em gestão de hospital, em reforma da Previdência, em ataques a escolas, em armas de fogo, em política externa, em barragens, em Zema, em disco voador, em briga de Bolsonaro com Rodrigo Maia e até na doença do Fábio Assunção. Ler os comentários dos tais especialistas de redes sociais me faz lembrar daquele antigo sucesso da banda Engenheiros do Hawaii, a música Toda Forma de Poder: “Eu presto atenção no que eles dizem, mas eles não dizem nada”.

 

As críticas feitas aos dois hospitais filantrópicos de Araxá me incomodaram bastante e por isto resolvi abordar este assunto aqui na coluna. Me incomodou muito também a declaração do presidente Jair Bolsonaro, em entrevista a uma TV chapa-branca, em que ele afirma nunca ter existido ditadura militar no Brasil. O meu incômodo foi ver o presidente da República mentindo em rede nacional por meio de uma emissora de televisão. É óbvio que houve ditadura militar em nosso país. Dizer o contrário é tentar tapar o sol com a peneira ou desviar o foco da briga que Bolsonaro teve via imprensa nesta semana com o mimado Rodrigo Maia.

 

É até compreensível a divergência de opiniões sobre o que aconteceu em 31 de março de 1964. Para uns, entre os quais me incluo, houve um golpe militar que derrubou o presidente João Goulart, que tinha sido eleito democraticamente pelo povo brasileiro. Para outros o que houve foi uma revolução político-militar que depôs João Goulart porque o presidente queria fazer do Brasil um país comunista. Agora, independentemente se foi golpe ou revolução, o que se viu nos vinte e um anos seguintes foi uma ditadura militar que perseguiu, torturou e matou seus contestadores, que retirou dos brasileiros o direito do voto e que censurou a liberdade de expressão.

 

Como capitão reformado do Exército, Bolsonaro tem opiniões a favor dos militares, que sempre tem alguma desculpa para as atrocidades cometidas durante a ditadura. Tudo bem, opinar é um direito dele. Mas como presidente da República ele deve ter a responsabilidade de não faltar com a verdade. Houve ditadura militar no Brasil sim. Não tem como reescrever a história. O que foi feito está feito. A ditadura militar é uma mancha de sangue na história do nosso país. É preocupante ver especialistas em bajular Bolsonaro defender nas redes sociais essa mentira do presidente. O fanatismo realmente compromete a inteligência do ser humano. #TeveDitaduraSim

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3756 do Correio de Araxá em 30 de março de 2019

 

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