#prontofalei – O mundo precisa de mais Leilianes

Leiliane Rafael da Silva. Foto: Antonio Milena.

O jornalismo brasileiro perdeu nesta semana um dos seus maiores expoentes. A morte do jornalista Ricardo Boechat foi um duro golpe no jornalismo sério do nosso país em tempos de proliferação de fake news. Ele podia ser ouvido todos os dias de manhã na Rádio BandNews FM e visto à noite no Jornal da Band, além de ser lido toda semana na revista IstoÉ. Profissional do rádio e da TV. Colunista de escrita impecável. Crítico feroz das injustiças, corrupção e impunidade que destroem o Brasil. Um jornalista respeitado pelo público e por seus colegas de profissão. Assim era Ricardo Boechat.

 

Todos os telejornais da última segunda-feira, incluindo o líder de audiência Jornal Nacional da TV Globo, dedicaram grande parte do noticiário a Boechat. E não foi somente para tratar da queda do helicóptero que matou o jornalista e o piloto Ronaldo Quatrucci. As reportagens destacaram a carreira de Boechat e a sua importância para a imprensa brasileira. Chamou a atenção as carreatas que taxistas de São Paulo e do Rio de Janeiro fizeram para homenagear o jornalista que lhes fazia companhia todas as manhãs nos caóticos trânsitos dessas metrópoles por meio do rádio.

 

Em meio à comoção causada pela morte trágica de Ricardo Boechat, uma cena chamou a atenção dos brasileiros e fez o país refletir sobre os tempos atuais. Quando caiu no Rodoanel em São Paulo, o helicóptero em que estava Boechat colidiu com um caminhão. A cabine do veículo ficou praticamente destruída. Foi aí que entrou em cena a vendedora Leiliane Rafael da Silva, de 28 anos, que passava pela rodovia no momento do acidente. Ela não pensou duas vezes para pular da garupa da motocicleta conduzida pelo marido e correr até o caminhão para tentar salvar o motorista.

 

Enquanto Leiliane tentava abrir a porta do caminhão e tirava destroços do helicóptero que estavam na cabine, vários homens com seus aparelhos celulares em mãos filmavam a ação da moça. Apenas um homem se dispôs a ajudar Leiliane no salvamento do motorista, que felizmente saiu ileso do acidente depois que a moça cortou o seu cinto de segurança com uma faca. A atitude corajosa da vendedora contrastou com a covardia daqueles homens que não esboçaram nenhuma reação para tentar ajudá-la. Covardes que pensaram apenas em gravar imagens para postar em redes sociais e espalhar em grupos de aplicativos de mensagens.

 

A imagem de Leiliane tentando abrir a porta do caminhão para salvar a vida do motorista é um sopro de esperança em um mundo cada vez mais egoísta. Porém, aqueles sujeitos ali parados sem ajudá-la são a constatação da insensibilidade do ser humano com a dor alheia. Vivemos hoje em um mundo em que grande parte das pessoas se preocupa somente com elas e não estão nem aí para os outros. O avanço das tecnologias fez com que o ser humano se tornasse mais frio. O mundo virtual, onde impera o desrespeito, a intolerância e agressividade, está deixando o mundo real cada vez mais insensível.

 

A atitude de Leiliane chamou a atenção das pessoas que ainda conseguem ter a percepção da importância do amor ao próximo, de ajudar alguém em perigo, de não virar as costas para um semelhante em situação de risco. E chamou a atenção também da imprensa, que contou a sua história. A mulher que ajudou o motorista tem uma doença rara e luta pela vida. Mãe de três filhos e desempregada, Leiliane tem uma doença chamada Malformação Arteriovenosa (MAV) que é provocada por defeitos no sistema circulatório. Trata-se de uma anormalidade vascular que atinge principalmente o cérebro.

 

Leiliane foi diagnosticada com essa doença em novembro do ano passado, logo após o nascimento da sua filha caçula. Assim como milhões de brasileiros, ela foi buscar tratamento para a sua doença na rede pública de saúde. Acontece que a doença dela é rara e a demora no tratamento pode significar a sua morte. E como no SUS tudo é muito demorado e precário, a vendedora encontrou inúmeras dificuldades para tratar a doença. É necessária a realização de uma cirurgia que não tinha data para acontecer. Nunca é demais lembrar que a situação lamentável da saúde pública no Brasil é culpa dos políticos corruptos que embolsam milhões de reais que deveriam ser investidos nesta área. A corrupção mata milhares de pessoas que não conseguem atendimento no SUS.

 

Depois que a doença de Leiliane veio à tona pela imprensa, um neurocirurgião e uma ONG se propuseram a ajudá-la. Ela terá o tratamento que necessita e fará a cirurgia. Essa mulher, que mesmo enfrentando o pior momento da sua vida, não mediu esforços para ajudar uma pessoa que nunca tinha visto terá agora a oportunidade de vencer a batalha contra a MAV e criar seus três filhos ao lado do marido. A vendedora não pensou em si quando foi salvar o motorista. Ela pensou apenas em ajudar alguém em perigo. Leiliane colocou a situação de risco do seu semelhante acima da sua enfermidade que faz com que a sua própria vida esteja em risco. Que ser humano incrível.

 

São exemplos como o dessa moça que faz com que continuemos acreditando na humanidade. O bem tem que continuar prevalecendo sobre o mal. O ser humano não pode permitir que as boas ações, a solidariedade, o respeito e o amor ao próximo se tornem coisas do passado como um disco de vinil ou um videocassete. Precisamos nos preocupar mais com as pessoas aqui no mundo real. Conversar olho no olho. Abraçar. Ouvir. Ajudar. O mundo precisa de mais humanidade. O mundo precisa de mais Leilianes. #MaisAmorMenosEgoísmo

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3750 do Correio de Araxá em 16 de fevereiro de 2019

 

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