#prontofalei – Que bandido caridoso!

No dia 5 de novembro de 2015 uma barragem de rejeitos da mineradora Samarco, localizada em Mariana, se rompeu e uma enxurrada de lama varreu o distrito de Bento Rodrigues matando 19 pessoas. O rompimento da barragem liberou 63 milhões de m³ de rejeitos que percorreram Minas Gerais e Espírito Santo, deixando um rastro de destruição pelo caminho, até alcançar o mar. A bacia hidrográfica do Rio Doce foi contaminada pela lama tóxica. Foi o maior desastre ambiental do Brasil. Uma das empresas controladoras da Samarco era a Vale.

 

A gente ouve desde criança que devemos aprender com os nossos erros. Porém, o desastre ambiental ocorrido em Mariana são serviu para a empresa Vale aprender nada. E não serviu também para que o Estado e a União tomassem providências efetivas para impedir que outra tragédia como aquela acontecesse de novo. Além disso, a já famosa morosidade da Justiça brasileira colaborou para que, passados três anos da tragédia de Mariana, nenhum culpado tenha sido punido ainda. As famílias que perderam entes queridos, casas, propriedades rurais e trabalho por causa da lama da Samarco esperam as suas indenizações até hoje. Uma vergonha!

 

Sem pagar pelo crime ambiental de Mariana, a Vale continuou agindo como se nada tivesse acontecido. O rompimento da barragem da Samarco não foi suficiente para a Vale perceber o perigo de ter todo o setor administrativo e o refeitório da sua unidade em Brumadinho bem debaixo de uma barragem com 13 milhões de m³ de rejeitos de mineração. A irresponsabilidade criminosa da Vale causou outra tragédia neste início de ano. O rompimento da barragem 1 da Mina do Feijão, em Brumadinho, foi mais um crime cometido pela Vale contra o povo mineiro.

 

Até o momento em que escrevo esta coluna a Defesa Civil de Minas Gerais divulgou que 110 corpos foram encontrados pelas equipes de resgate e que 238 pessoas continuam desaparecidas. Depois de uma semana da tragédia, a possibilidade de encontrar um sobrevivente é muito pequena. A verdade é que as pessoas que constam na lista de desaparecidos estão debaixo da lama e nunca mais voltarão para as suas famílias. É revoltante saber que mais de três centenas de pessoas perderam a vida por causa de uma mineradora criminosa que visa apenas os lucros e não está nem aí para o ser humano.

 

A repetição da tragédia de Mariana fez com que as ações das autoridades fossem diferentes desta vez. A Vale teve bilhões de reais bloqueados pela Justiça para garantir o pagamento de indenizações e de reparos aos danos ambientais causados pelo rompimento da sua barragem em Brumadinho. Engenheiros e funcionários da mineradora que atestaram a segurança dessa barragem foram presos. Nada disso vai trazer de volta aqueles que a lama levou para sempre, mas serve para punir os culpados. Foi justamente a impunidade no caso de Mariana que fez a Vale não mover uma palha para evitar novas tragédias.

 

Depois de matar centenas de pessoas, destruir a vida de tantas outras que estão sofrendo muito com perda prematura daqueles que amam, acabar com o meio ambiente e ameaçar o abastecimento de água de cidades inteiras, a Vale decidiu fazer caridade. A empresa anunciou que vai doar R$ 100 mil para os familiares de cada pessoa morta na tragédia. O padre Fábio de Melo foi certeiro ao comentar sobre isso em suas redes sociais: “Doar? Um bandido entra na sua casa, rouba tudo o que você tem, mata pessoas da sua família, destrói o seu espaço emocional, memórias, depois ele volta e diz que vai deixar um dinheirinho para você recomeçar a vida. Que bandido caridoso!”

 

Quase todas as mineradoras do país não se preocupam em investir corretamente na segurança das suas barragens de rejeitos. Elas preferem investir em deputados federais e estaduais para ter força no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas com o objetivo de barrar leis que julgam ser desfavoráveis à mineração. Prova disso é que um projeto de lei que endurecia as regras de licenciamento para barragens de mineração em Minas Gerais, de autoria do deputado estadual João Vítor Xavier, foi barrado na Assembleia Legislativa pela Comissão de Minas e Energia. Os três deputados mineiros que votaram contra esse projeto foram Tadeu Leite, Gil Pereira e Thiago Cota, que curiosamente é filho de um ex-prefeito de Mariana.

 

Aqui em Araxá existem duas mineradoras, a CBMM e a Mosaic, que comprou a unidade justamente da Vale. Logo depois da tragédia de Brumadinho, o prefeito Aracely de Paula convocou uma reunião com secretários municipais, Ministério Público e órgãos de segurança pública para discutir a situação das barragens existentes no município. Essa reunião resultou em visitas técnicas às mineradoras para fiscalizar as barragens. Uma empresa localizada no Distrito Industrial que possui uma barragem também será visitada. Já os vereadores Robson Magela, Raphael Rios e Fernanda Castelha enviaram ofícios para as mineradoras com diversos questionamentos sobre as barragens. Eles têm reunião marcada na CBMM na próxima semana para tratar desse assunto.

 

Procurada por diversos veículos de comunicação nesta semana, a CBMM enviou comunicado à imprensa informando que possui oito barragens, sendo uma para acumulação de água nova, três para contenção de sedimentos e quatro para disposição de rejeitos e resíduos, sendo que todas passam por verificações técnicas periódicas realizadas pela companhia com o apoio de consultores externos. Estive na CBMM em 2017 e vi que as barragens de lá são impermeabilizadas, o que as tornam mais seguras. A Mosaic não se pronunciou até o momento em que escrevo esta coluna.

 

Os leitores devem ter estranhado o fato desta coluna não abordar a atuação dos bombeiros na tragédia de Brumadinho. O motivo é simples. A coluna da próxima semana será dedicada a esses verdadeiros heróis que merecidamente estão tendo o seu trabalho reconhecido pela população. A dor de Brumadinho dói também no coração e na alma do povo brasileiro. Infelizmente a morte de 19 pessoas na tragédia de Mariana não serviu para nada. Tomara que agora seja diferente e que a morte de centenas de pessoas em Brumadinho mude muita coisa no setor da mineração deste país. #ForçaBrumadinho

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3748 do Correio de Araxá em 02 de fevereiro de 2019

 

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