#prontofalei – O nióbio não é insubstituível

A revista IstoÉ publicou em seu site na semana passada uma reportagem sobre o nióbio assinada pelo jornalista Vicente Vilardaga. Como nós araxaenses já sabemos o mercado mundial de nióbio é dominado pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM). A reportagem foi feita pelo fato do presidente Jair Bolsonaro ser um entusiasta desse metal e ter dito diversas vezes que o produto seria capaz de garantir a independência econômica do nosso país, o que não é verdade. O então deputado federal Bolsonaro visitou Araxá em 2016 para conhecer a CBMM.

 

A reportagem da IstoÉ afirma que embora seja muito útil e valioso e renda US$ 2 bilhões em exportações por ano para o Brasil, o nióbio não é insubstituível. Entrevistei algumas vezes o ex-diretor da CBMM Antônio Gilberto Ribeiro de Castro, que sempre atendia os pedidos de entrevista, ao contrário do seu sucessor. Na entrevista que fiz com Gilberto em 2017 para a revista Foco Araxá, o ex-diretor informou que vanádio, molibdênio e titânio são metais que não tem a qualidade excepcional do nióbio, mas que podem substituí-lo com algumas desvantagens e até vantagens em certos lugares.

 

Muita gente pensa que a CBMM apenas extrai o nióbio do solo de Araxá e o vende para o exterior. Não é bem assim. Para crescer o seu mercado e desenvolver novas utilizações, a CBMM investe milhões de dólares todos os anos em tecnologia. São cerca de US$ 150 milhões investidos por ano para criar novas formas de usar o nióbio no mundo. Eduardo Ribeiro, CEO da CBMM, disse para a IstoÉ que houve um aumento do mercado do nióbio de 25% em 2018 em relação a 2017 e que a empresa conseguiu elevar o preço porque a cotação do vanádio, metal concorrente, mais do que dobrou.

 

Gilberto me disse na entrevista para a Foco Araxá que o mundo é que controla o preço do nióbio. Ele alertou que não adianta dobrar o preço do nióbio, pois os clientes da CBMM irão comprar metais que o substituem e as vendas cairão pela metade. Muita gente que não sabe o que fala diz que a CBMM vende o nióbio a preço de banana e que a empresa poderia comercializar o metal pelo valor que quisesse. Isso não existe. O preço é regulado pelo mercado. Basta lembrar que as vendas do nióbio despencaram em 2008, ano da crise financeira mundial.

 

Araxá tem uma arrecadação privilegiada devido aos impostos pagos pela CBMM, que atualmente possui cerca de 1.800 funcionários. Depois de 170 demissões no final de 2016, a empresa voltou a realizar contratações no ano passado. Foram 60 pessoas contratadas e a expectativa é que esse número chegue a 200 até o fim deste ano. Além disso, a empresa vai construir mais um forno, que irá gerar cerca de 1.200 empregos temporários por um período de dois anos.

 

A Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig) embolsa 25% do lucro da CBMM. É o nióbio que banca a realização de obras em Minas Gerais, algumas totalmente desnecessárias como a Cidade Administrativa do Governo do Estado, em Belo Horizonte, que consumiu R$ 2 bilhões. Falando em Codemig, até agora o governador Romeu Zema não escolheu o novo presidente da companhia. Continuo na expectativa de que pela primeira vez alguém de Araxá assuma a presidência, pois a nossa cidade não pode se contentar apenas as migalhas da Codemig.

 

Voltando a falar da CBMM, outro dia vi reclamações nas redes sociais de que a empresa não contrata pessoas de Araxá. Vi também comentários de que a empresa deveria contratar pessoas sem qualificação para treiná-las. Até onde eu sei a empresa dá preferência por profissionais da nossa cidade. Agora, não tem como querer que a CBMM contrate profissionais que não sejam devidamente qualificados. É obrigação do profissional se qualificar para tentar as vagas oferecidas pela empresa. É utopia imaginar que alguém consiga uma boa vaga no mercado de trabalho sem ter qualificação. Todo mundo quer trabalhar na CBMM, mas poucos se prepararam para isto.

 

Existe um mito de que para entrar na CBMM é preciso ter QI (quem indica). Não acredito que uma empresa multinacional, cujos donos nem daqui são, se sujeite a isso. Acho que esse mito acabou sendo criado por aqueles que tentaram e não conseguiram ser funcionários da companhia. Outro mito envolvendo a empresa é relacionado ao câncer. Sem ter nenhum estudo ou embasamento científico que comprove o fato, muita gente afirma que Araxá é uma das cidades com maior índice de câncer do Brasil por causa da CBMM. Acho uma irresponsabilidade essa afirmação. E quem não concordar comigo é só me enviar um estudo que comprove isso, pois eu nunca vi.

 

Além dos impostos que paga, a CBMM contribui muito com Araxá, seja através do repasse direto de recursos para entidades ou liberação de verbas por meio de renúncia fiscal. E a empresa tem que contribuir mesmo, afinal os seus lucros são oriundos de uma das riquezas naturais da nossa cidade. A extração do nióbio cria um passivo ambiental. Portanto, a contribuição acaba sendo uma reparação. A Mosaic deveria seguir o exemplo da CBMM e ajudar a cidade também, pois até agora tem agido da mesma maneira que as suas antecessoras.

 

Um dia o nióbio vai acabar em Araxá. Com o consumo atual, a previsão é que a extração do metal dure por mais 200 anos. Nós já não estaremos aqui, mas outras gerações estarão. E aí? Como será Araxá em 2219? E tem mais. A reportagem da IstoÉ termina com a informação de que existem reservas identificadas e não exploradas de nióbio em várias outras partes do mundo, sendo que se houver um grande aumento da demanda, novas jazidas começarão a ser exploradas e o preço cairá. Com o nióbio mais barato, Araxá arrecadará menos impostos. Já passou da hora da cidade pensar em outras fontes de arrecadação para o futuro. #NióbioNãoÉEterno

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3747 do Correio de Araxá em 26 de janeiro de 2019

 

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