#prontofalei – O líder de audiência das manhãs de sábado

O tempo passa e a gente nem vê. Já vai fazer uma década que foi ar pela primeira vez o programa que deu o que falar no rádio araxaense. No dia 4 de abril de 2009, um sábado, estreava na extinta Rádio Cidade AM 1170 kHz o programa Verdade. Quatro jornalistas debatendo durante duas horas as principais notícias da semana em Araxá. A primeira formação do programa contou com os jornalistas Kiko Machado, Raphael Rios, Saulo Aguiar e eu. Esse quarteto se reuniu no mês passado no programa Sem Censura, no portal Diário de Araxá, para relembrar aqueles bons tempos que não voltam mais.

 

O programa Verdade foi idealizado pela dupla Raphael e Saulo, que faziam parte da equipe de esportes da emissora. Eles levaram a ideia do programa para mim e o Kiko, que fazíamos parte do departamento de jornalismo. Gostamos muito da proposta, que em seguida foi apresentada para a direção da rádio e aprovada. O programa contava com editorial, personagem e frase da semana, as notícias de destaque, esportes e o quadro Repórter Bisbilhoteiro, onde o Saulo fazia reportagens investigativas que geralmente geravam alguma polêmica.

 

O programa agradou ao público assim que estreou. Cada jornalista expunha a sua opinião sobre todos os assuntos da maneira que quisesse sem se preocupar se agradaria ou desagradaria alguém. Eram quatro pontos de vista sobre um mesmo assunto. Claro que tudo era feito com muita responsabilidade, o que deu uma enorme credibilidade ao programa. O Verdade foi líder de audiência nas manhãs de sábado. Os telefones da emissora não paravam um minuto. As pessoas ligavam para participar das enquetes, dar opiniões e concorrer a prêmios.

 

Muitas vezes as opiniões vinham recheadas de críticas ao poder público municipal e isso desagradava bastante os políticos que comandavam a Prefeitura de Araxá na época. Nos seis primeiros meses do Verdade, a Administração Municipal cortou a sua publicidade institucional na emissora como forma de retaliação ao programa. Não adiantou nada, pois a direção bancou o Verdade. Para os poderosos era inaceitável quatro jornalistas expondo as mazelas da política local e criticando os desmandos dos governantes da cidade toda semana.

 

Eu me lembro que todo sábado quando o programa terminava o celular do Kiko tocava. Ele era o diretor de jornalismo da emissora e do outro lado da linha era sempre a mesma pessoa. O responsável pela assessoria de comunicação da Prefeitura ouvia o programa e ligava para o Kiko para reclamar sobre alguma crítica feita ao prefeito ou à Administração Municipal. Porém, as reclamações entravam por um ouvido e saíam pelo outro. O que interessava mesmo era a opinião do público e não a dos poderosos que achavam ser os donos da cidade. E o público adorava o programa.

 

As duas horas do programa passavam voando. Mesmo com toda a pressão que sofríamos da classe política da época, era bom demais fazer o programa. O Verdade foi muito importante para a minha carreira na imprensa. Até hoje sou abordado por pessoas que querem falar do programa e dizer que sentem muitas saudades daquela época em que a verdade era dita sem meias palavras no rádio. A formação original do programa se desfez em meados de 2010 com a saída da dupla que o idealizou. Raphael e Saulo trilharam novos caminhos e foram substituídos por Edmilson José e Carlos Samartano.

 

Em 2011, Samartano foi substituído pela jornalista Aline Rezende, única mulher a fazer parte da bancada do programa. O Verdade foi ao ar pela última vez em dezembro de 2012. Não me lembro se foi no dia 15 ou 22. E não teve despedida, afinal pensávamos que estaríamos de volta em 2013. Mas infelizmente o programa não voltou. E não me perguntem o porquê do fim do programa. A direção da emissora não deu nenhuma satisfação para a equipe e estamos sem entender até hoje. Alguns dizem que a reeleição do prefeito da época teve relação com o fim do programa. Eu prefiro acreditar que a emissora tenha tido um outro motivo que achou por bem não compartilhar conosco.

 

Kiko Machado e eu estivemos na bancada do Verdade durante as quatro temporadas do programa. Foi um período de muito aprendizado com o público e com todos os profissionais que passaram pela bancada. Um programa que agradou milhares de pessoas e desagradou meia dúzia que jurava estar imune às críticas por ocupar momentaneamente o poder. Ninguém é dono da verdade. Cada um tem a sua opinião. A crítica faz parte da vida de quem ocupa cargos públicos. Vivemos em um país democrático. A censura fez parte da ditadura militar. É coisa do passado. Hoje existem as liberdades de imprensa e de expressão.

 

O Verdade marcou época no rádio de Araxá justamente porque cada jornalista tinha a liberdade de expressar a sua opinião. O programa foi sinônimo de imprensa livre e independente. Tenho muitas saudades daquelas manhãs de sábado. #Verdade10Anos  

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3738 do Correio de Araxá em 24 de novembro de 2018

 

This entry was posted in #prontofalei. Bookmark the permalink.

Comments are closed.