#prontofalei – Diálogo para combater o suicídio

O tema da coluna de hoje ainda é um tabu. Suicídio. Em 16 anos de imprensa, tratei desse assunto apenas uma vez. Foi há um ano, quando entrevistei no programa Sem Censura, que é veiculado pelo portal Diário de Araxá, a mãe de um jovem que tirou a própria vida. Também participaram dessa entrevista uma psicóloga e o vereador Raphael Rios, autor da lei que institui o dia 10 de setembro como o Dia Municipal de Combate e Prevenção ao Suicídio. A entrevista foi motivada pelas ações realizadas em nossa cidade no ano passado no Setembro Amarelo.

 

Setembro Amarelo é uma campanha de prevenção ao suicídio que teve início em 2015 e é uma iniciativa do Centro de Valorização da Vida, do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria. O objetivo dessa campanha é colocar o suicídio em debate para alertar a população sobre esse terrível mal que tira a vida de mais de 11 mil pessoas por ano no Brasil. Notícias sobre suicídio praticamente não são divulgadas na imprensa. Apenas casos envolvendo pessoas famosas são noticiados. O motivo para a não divulgação, como rege as editorias, é que isto poderia estimular pessoas depressivas a tirar a própria vida.

 

E como não se noticia suicídios, a impressão que a sociedade tem é que eles não acontecem com tanta frequência. Mas, infelizmente, não é bem assim. Um estudo recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que 32 pessoas cometem suicídio por dia no Brasil. Aqui em Araxá, segundo dados do Instituto Médico Legal (IML), já são mais de 75 pessoas que se mataram nos últimos sete anos. Ainda de acordo com a OMS, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos. O estudo também apontou que a cada morte confirmada por suicídio, outras vinte tentativas acontecem no mundo. São números alarmantes.

 

É preciso falar de suicídio sim. É preciso quebrar esse tabu. Temos que falar de combate e prevenção ao suicídio. A inspiração para esta coluna veio da homilia realizada pelo padre Márcio André no último domingo durante a missa solene da Festa da Sagrada Família. Emocionado, ele relatou a experiência de ter sido chamado a um velório na semana passada em Araxá para encomendar a alma de um jovem de 17 anos que cometeu suicídio. As palavras do sacerdote me tocaram profundamente. Se ninguém falar de suicídio, como esse mal será combatido? É por isso que decidi abordar este assunto nesta semana.

 

Uma pessoa que comete suicídio não quer morrer e sim arrancar de dentro dela uma dor insuportável que a consome. Quer acabar com o sofrimento. A maior causa de suicídio é a depressão, que não é frescura como muita gente diz por aí. Trata-se de uma terrível doença que é apontada por muitos especialistas como o mal do século. Mas como prevenir? Pessoas próximas de alguém que cometeu suicídio relatam, após o fato consumado, que não perceberam os sinais que foram dados. E são vários os sinais, como frases do tipo “não aguento mais” e “quero sumir” ou isolamentos social.

 

Recentemente, uma mulher cometeu suicídio em Araxá depois de dar vários sinais nas redes sociais de que não estava bem e pretendia acabar com a sua vida. Inclusive, ela publicou uma despedida antes de se matar. Mas, por que as pessoas têm tanta dificuldade para perceber os sinais dados por alguém que pensa em suicídio? É porque hoje as pessoas se preocupam cada vez menos com os problemas dos outros. É porque falta diálogo nas famílias. É porque a internet tomou conta da vida do ser humano, que passa horas olhando para a tela de um celular, mas não consegue olhar por alguns minutos nos olhos do marido, da esposa, dos filhos, dos pais, dos avós ou dos amigos.

 

Como disse o padre Márcio André em sua homilia, hoje é raro pais que sentam com os filhos para saber como foi o dia deles. Quase não existem filhos que abraçam seus pais e conversam com eles sobre as coisas da vida. O mundo atual é cada vez mais virtual e menos real. E isso é péssimo, pois afasta as pessoas e cria famílias de estranhos vivendo juntos sob o mesmo teto sem saber das dores e das alegrias uns dos outros. Tudo o que uma pessoa que pensa em se matar para acabar com a sua dor mais quer é que alguém perceba o seu sofrimento e lhe estenda a mão. Mas com a escassez de diálogo, essa pessoa não é percebida. O sofrimento persiste e o suicídio, infelizmente, acontece.

 

E o que fazer se percebermos os sinais ou desconfiarmos que alguém pensa em suicídio? É preciso ter um diálogo aberto com a pessoa para tentar entender o que está lhe causando tamanha dor e sofrimento. Mas tem que ser um diálogo sem julgamentos, onde é preciso se colocar no lugar da outra pessoa para buscar a compreensão dos seus sentimentos. E em seguida é essencial procurar ajuda profissional. Psicólogos e psiquiatras sabem como lidar com essas situações e dão o apoio necessário para a pessoa e sua família.

 

O Centro de Valorização da Vida conta com uma equipe de voluntários que são treinados para conversar com pessoas que procuram ajuda e apoio emocional. O Ligue 188 é uma ligação gratuita e os voluntários atendem as pessoas que querem ser ouvidas e expor as suas dores, mas que não conseguem ter diálogo com aqueles que estão próximos. É preciso quebrar o tabu. Falar de suicídio é enfrentá-lo. É fazer um alerta sobre um mal que acaba com tantas vidas precocemente. É preciso prestar atenção naqueles que convivem conosco e reservar um tempo do dia para o diálogo. O número de suicídios só vai começar a cair quando a humanidade aprender que amar o próximo não é só dizer que ama. #CombateAoSuicídio

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3727 do Correio de Araxá em 08 de setembro de 2018

 

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