#prontofalei – CENSURA NÃO!

Imagem ilustrativa.Tudo de ruim que foi revelado sobre a política nacional nos últimos anos fez surgir no país um movimento pedindo a intervenção militar. Aproveitando-se das redes sociais e da recente greve dos caminhoneiros, os defensores dessa ideia descabida começaram a disseminar que a intervenção seria a solução para todos os problemas que o Brasil enfrenta atualmente. Intervenção militar não é solução para nada e a própria história do país nos mostra isto. A ditatura militar é a página mais negra da nossa história. Porém, como a memória do povo é muito curta e vivemos em um país onde a educação não é priorizada, essa ideia furada de intervenção passou a ser defendida por boa parte da população que não faz a menor ideia do que aconteceu nos 21 anos de ditadura militar.

 

A ditadura militar suprimiu os direitos constitucionais do povo brasileiro, perseguiu todos aqueles que discordaram do regime autoritário e implantou a censura no país. O golpe militar de 1964, que implantou a maldita ditadura militar, enterrou a democracia e fez surgir duas décadas de escuridão, sofrimento, perseguição e morte. O direito ao voto foi arrancado dos brasileiros, que tiveram que engolir goela abaixo governantes oriundos do Exército que impunham as suas vontades por meio do uso da força bruta. Felizmente eu vivi apenas os oito últimos anos da ditadura militar e como era ainda somente uma criança não entendia o que estava acontecendo. Hoje, depois de estudar o assunto e ler muito sobre aquele período tenebroso, agradeço a Deus por não ter nascido antes.

 

Não me imagino como jornalista durante a ditadura militar, pois uma coisa que não admito é censura. A Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988, ou seja, três anos após o fim da ditadura militar, garante que a liberdade é um direito fundamental dos brasileiros. Está lá no artigo 5º que a liberdade é um dos direitos considerados invioláveis. Sou um defensor da liberdade de expressão. E estou amparado pela nossa Constituição, que garante a livre manifestação do pensamento e a livre expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença. Um dos alicerces da nossa democracia é a liberdade de expressão, pois todos nós temos o direito de expor o que pensamos.

 

Uma das principais vítimas da ditadura militar foi, sem dúvida nenhuma, a imprensa brasileira. A censura era feroz. Muitos jornalistas foram presos, torturados e até mortos, como foi o caso do diretor de jornalismo da TV Cultura, Vladimir Herzog, que foi assassinado em 1975 depois de se apresentar voluntariamente para depor diante de autoridades militares. Ainda tentaram inventar que Herzog cometeu suicídio e apresentaram uma foto que comprovaria isso. Mas como faltou inteligência para o militar que montou a cena do suposto suicídio, essa farsa da ditadura nunca colou. Herzog foi morto como outros jornalistas que não se calaram diante de um regime autoritário que usava a censura para colocar cabresto no povo brasileiro.

 

Depois de todas as atrocidades cometidas contra a imprensa nos anos de chumbo da ditatura militar, a Constituição Federal de 1988 assegurou vários direitos relativos à informação e ao jornalismo. Nenhuma lei ou dispositivo pode vetar de qualquer forma a plena liberdade da informação jornalística. É vedada toda censura e é assegurado o direito de resposta proporcional ao agravo que a pessoa tenha sofrido. A liberdade de imprensa também é um dos alicerces da democracia. A censura da época da ditadura favorecia os militares que estavam no poder. A população brasileira, principalmente a do interior do país, não tinha noção das atrocidades cometidas pelo regime militar. Os militares é que decidiam o que era e o que não era notícia.

 

Se hoje a população pode acompanhar pela imprensa todos os desdobramentos dos casos de corrupção envolvendo pessoas poderosas é porque vivemos em uma democracia. É porque não existe censura. Se bem que em alguns poucos veículos de comunicação ainda existe uma certa censura disfarçada do que eles chamam de linha editorial. Geralmente são veículos de comunicação comandados por famílias de políticos ou que dependem excessivamente de verbas públicas de publicidade. O advento da internet dificultou bastante a vida de quem ainda pratica esse tipo de censura velada, pois como a informação passou se propagar rapidamente, os veículos que deixam de divulgar determinadas notícias perdem a sua credibilidade junto ao público.

 

A censura imposta pela ditadura militar acabou com as opiniões isentas dos jornalistas brasileiros. Somente aqueles que defendiam o regime autoritário podiam opinar livremente sem serem incomodados pelos censores. Eu certamente não me curvaria a nenhum censor se atuasse na imprensa durante os anos de chumbo. Como não aceito ser censurado em hipótese nenhuma, provavelmente eu teria muitos problemas com os milicos e seria mais uma vítima das maldades do regime militar.

 

Não tenho a pretensão de converter nenhum apoiador de intervenção militar, já que a maioria tem uma convicção baseada no que viu no Facebook ou no grupo dos amigos no Whatsaap. Além disso, eles também não são muito adeptos do diálogo por não gostarem de ser contrariados. Meu intuito é apenas mostrar o lado sombrio de uma ditadura militar. E deixar claro que censura é um câncer para a sociedade e deve ser combatida custe o que custar, pois se ela se espalhar a democracia morre. #CensuraNão

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3720 do Correio de Araxá em 21 de julho de 2018

 

Foto: Reprodução/Correio de Araxá.

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