#prontofalei – Quais serão as consequências de tanta desinformação?

Imagem ilustrativa.“Fake news, um mal a ser combatido.” Este foi o título desta coluna no dia 10 de fevereiro deste ano. Destaquei, na oportunidade, que o combate às notícias falsas é muito importante para o país, pois as mesmas são produzidas com o intuito de favorecer determinadas pessoas, utilizando a mentira como matéria-prima. Porém, alertei que combater fake news não é fácil e salientei que o ideal mesmo seria as pessoas terem discernimento para detectar as notícias falsas. E lamentei que a grande maioria das pessoas tem uma dificuldade enorme em identificar fake news.

 

Não pensava em voltar neste assunto tão cedo, mas não posso ignorar as aberrações vistas nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens durante a greve dos caminhoneiros que parou o país. Facebook, Twitter, Instagram e WhatsApp foram invadidos por fake news de tudo quanto é tipo. A maioria dessas notícias falsas não passou de pura bobagem. Um amontoado de idiotices mesmo. Mas o impressionante foi a quantidade de pessoas que compartilharam notícias e informações mentirosas achando mesmo que fossem verdadeiras. Nunca vi tanta gente compartilhando asneiras. Até formador de opinião compartilhou fake news sobre uma emissora de televisão.

 

“O Exército pode derrubar o governo constitucionalmente após sete dias e seis horas de greve.” Essa fake news certamente foi uma das maiores baboseiras que circularam pelo país. Mesmo sem ter nenhum embasamento constitucional que a sustentasse, esta notícia falsa se espalhou rapidamente e fez muita gente do “Intervenção Militar Já” ficar contando as horas para ver os militares invadirem o Palácio do Planalto para implantar uma nova ditadura no país. Coitadinhos. A greve ultrapassou os tais sete dias e seis horas e nada do Exército derrubar o Temer. Devem ter ficado muito decepcionados. O curioso é que ninguém questionou as seis horas. Por que não cinco ou sete?

 

A turma que quis transformar a greve dos caminhoneiros em um movimento a favor de uma intervenção militar foi a que mais espalhou fake news. Eu mesmo vi várias mensagens tirando de contexto ou inventando falas de autoridades do Exército. Vi uma apoiadora da intervenção militar compartilhando um vídeo no Facebook com a seguinte legenda: “O comandante do Exército já tá de paletó e mandou o recado que os brasileiros querem ouvir.” Só que quem falava no vídeo vestido com um paletó azul era o historiador Marco Antônio Villa, que é comentarista político da rádio Jovem Pan. A moça apoia um improvável golpe militar, mas não faz a menor ideia de quem é o general Eduardo Villas Bôas, atual comandante do Exército.

 

Teve notícia falsa de tudo que é jeito. Um homem imitando a voz do jornalista Marcelo Rezende, já falecido, fingiu ter previsto esta greve dos caminhoneiros ainda em 2014. Uma fake news dava conta de que o Governo Federal cortaria a internet no país inteiro para que os caminhoneiros não pudessem se comunicar pelo WhatsApp. Outra dizia que uma facção criminosa tinha declarado apoio aos grevistas e decretado toque de recolher, sendo que quem saísse de casa sofreria as consequências. Apareceu até um texto atribuído ao padre Fábio de Melo em que o sacerdote declarava o seu apoio ao movimento grevista. Tudo fake news.  

 

Vi várias fake news com supostas propostas feitas pelos caminhoneiros onde os textos terminavam sempre com um pedido de compartilhamento para mostrar ao país “o que a Globo não mostra”. Aliás me chamou a atenção o fato da TV Globo e seus profissionais terem sido hostilizados em vários pontos do país durante a greve dos caminhoneiros. Fiquei com a impressão de que os caminhoneiros não queriam que fossem divulgados os problemas causados pela greve. A legitimidade da paralisação é incontestável, mas não dá para tapar o sol com a peneira. O movimento causou transtornos para a população sim e a Globo, assim como outras emissoras de televisão, apenas noticiou o que aconteceu.

 

Me preocupa ver tanta gente compartilhando notícias falsas sem sequer checar a veracidade delas e ao mesmo tempo atacando veículos de comunicação que possuem profissionais devidamente habilitados para buscar informações e repassá-las ao público. Não faz nenhum sentido para mim enaltecer fake news feitas por alguém que ninguém faz a menor ideia de quem seja e depois desmerecer as notícias dadas por profissionais de reconhecida credibilidade. Parece coisa de maluco. A única explicação razoável que encontro para essa situação absurda é que para certas pessoas a verdade pouca importa. O que interessa mesmo para elas é uma notícia que vá de encontro com a sua opinião. Se é falsa ou verdadeira não tem a menor importância para quem age assim.

 

Antes de terminar a coluna resolvi dar mais uma olhada em grupos do WhatsApp. Agora está circulando um vídeo de 2017 onde deputados federais de oposição gritam “Fora Temer” na votação de uma das denúncias feitas pela Procuradoria-Geral da República contra o presidente. Estão dizendo que o vídeo foi feito hoje e que agora Temer vai cair mesmo por causa da greve dos caminhoneiros. As fake news não param. Até onde vai isso? E quais serão as consequências de tanta desinformação? Diante de tudo que vi nas últimas semanas em nosso país, termino com uma frase dita pelo padre Márcio André na missa das sete horas da manhã do último domingo na Paróquia Sagrada Família: “A pior democracia sempre será melhor do que a melhor ditadura.” Assino embaixo. #FakeNewsNão

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3713 do Correio de Araxá em 02 de junho de 2018

 

Foto: Reprodução/Correio de Araxá.

This entry was posted in #prontofalei, Destaques. Bookmark the permalink.

Comments are closed.