#prontofalei – As tentativas de execução da memória de Marielle

Imagem ilustrativa.É chover no molhado afirmar que a intolerância, o ódio, a falta de respeito e as fake news fazem com que as redes sociais se tornem ambientes nocivos, que estão piores a cada dia. E quando penso que elas não podem piorar mais, me deparo com um festival de atrocidades publicadas em decorrência da execução da vereadora Marielle Franco. Comentários carregados de preconceito e ignorância tentaram denegrir a imagem da vereadora negra e favelada. A memória de Marielle sofreu inúmeras tentativas de execução. Os intolerantes de plantão destilaram o seu veneno nas redes sociais.

 

A vereadora foi atacada por ser defensora dos direitos humanos, que nada mais são do que os direitos básicos que todos nós temos. Muita gente, por falta de conhecimento, acha que direitos humanos são pessoas que defendem bandidos. Acontece que direitos humanos não são pessoas. São direitos. Porém, devido à minoria que defende direitos de bandidos, alguns deturpam a situação e tratam essas pessoas pela alcunha de direitos humanos. Portanto, a expressão “direitos dos manos” é uma banalização criada por deturpadores a partir da ignorância de grande parte da população sobre o assunto.

 

Ser um defensor dos direitos humanos não significa defender bandidos. É defender os direitos que todos nós temos à educação, à saúde, à liberdade de expressão e tantos outros. Será que alguém em sã consciência não defende os seus próprios direitos? Será que uma pessoa pode ser contra um direito que é seu? Eu não acredito que exista alguém que queira o fim dos direitos humanos. E se por acaso existir é porque a pessoa deve achar que direitos humanos é o apelido de uma pessoa que ela viu na TV defendo algum bandido.

 

As armas utilizadas nas tentativas de execução da memória de Marielle foram a mentira, a calúnia e a difamação. Teve até juíza mentindo em rede social. Uma desembargadora do Rio de Janeiro, uma tal Marília de Castro Neves Vieira, publicou mentiras e calúnias a respeito de Marielle. Tudo o que ela disse foi rapidamente desmentido pela imprensa após uma checagem. E o pior é que as informações mentirosas e caluniosas da desembargadora foram compartilhadas pelo Movimento Brasil Livre (MBL), que fez um papelão na ânsia de atacar a memória da vereadora. Essa magistrada, que não honra a sua toga, é a mesma que causou indignação no país ao ofender uma professora com Síndrome de Down.

 

Sobrou até para o Papa Francisco, que telefonou para a mãe de Marielle nesta semana para confortá-la com suas sábias palavras. Os intolerantes vomitaram o seu ódio contra o sumo pontífice. Francisco foi crucificado por fazer o bem. E muitas pessoas reclamaram do destaque dado pela mídia à execução da vereadora. Uma representante do povo, eleita democraticamente e defensora de causas sociais, foi sumariamente executada na chamada Cidade Maravilhosa. É natural que esse crime tenha grande repercussão, pois uma política foi executada e milhares de pessoas foram acompanhar o seu velório, além de que outras tantas protestaram contra o crime em diversas cidades brasileiras e até do exterior.

 

A grande repercussão do caso não significa que a vida de Marielle era mais importante do que a do policial assassinado durante uma operação de combate ao tráfico de drogas ou de uma criança vítima de bala perdida. Querer comparar mortes para eleger qual cadáver é o mais importante é de uma estupidez sem tamanho. Isso é falta de argumento. Marielle questionava determinadas ações truculentas da polícia. E daí? Todo mundo sabe que as polícias do Rio de Janeiro não são exemplos para ninguém, pois estão contaminadas pela corrupção e pela presença de milicianos. É óbvio que a maior parte dos policiais cariocas é honesta e correta, mas tem uma parte que não é. E isso mancha as instituições.

 

Marielle defendia as legalizações do aborto e da maconha. Eram bandeiras dela. Eu sou totalmente contra essas duas legalizações, pois para mim aborto é homicídio e maconha é a porta de entrada para drogas mais pesadas. Porém, eu não tenho o direito de atacar a memória da vereadora e nem de dizer que ela mereceu morrer, como muitos fizeram nas redes sociais por não concordarem com as bandeiras que ela defendia. Não interessa se quem mandou matar Marielle e quem executou o crime são traficantes, policiais ou políticos. O que interessa é que os responsáveis têm que ser identificados, presos e condenados.

 

A execução de uma legisladora eleita pelo povo para representá-lo foi uma afronta ao Estado Democrático de Direito e não pode ficar impune. O direito à vida é o primeiro e mais elementar dos direitos humanos. Marielle e milhares de brasileiros perderam esse direito devido à violência alimentada pela corrupção, drogas, intolerância, ódio, ignorância e preconceito. Até quando? #RespeitoAcimaDeTudo

 

Coluna #prontofalei publicada na edição nº 3703 do Correio de Araxá em 24 de março de 2018

 

Foto: Reprodução/Correio de Araxá.

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