Coluna Nilton Ribeiro – Abordagem fisioterapêutica para ganho da marcha

Foto: Divulgação.O período de 0 a 2 anos de idade é fundamental no desenvolvimento e na vida do ser humano, pois é nessa faixa etária que a criança começará a construir sua identidade e autonomia, determinando grande parte de suas capacidades futuras. Durante seus dois primeiros anos a criança, que antes dependia totalmente de seus pais e cuidadores, passa a adquirir certa independência motora, à medida que experimenta e vivencia estímulos. Estes desafios são concebidos no ambiente familiar e escolar, em que a criança socializa e interage com suas aprendizagens e habilidades com outras crianças ou adultos.

 

O desenvolvimento motor normal para a aquisição da marcha decorre da evolução das etapas de rolar, sentar com e sem apoio, arrastar, engatinhar, permanecer em pé, andar com e sem apoio até que a criança adquira a habilidade íntegra e independente de caminhar. A maturação dessas fases, dos reflexos primitivos, das reações de equilíbrio e posturais é necessária para a estabilidade e realização dos movimentos, que levam a obter o padrão da marcha.

 

Os primeiros passos do bebê se apresentam mediante o reflexo de apoio plantar e marcha reflexa. Este é um dos testes neurológicos que servem para avaliar a maturidade a nível medular no bebê, e deve estar presente até o segundo mês de idade. Após alguns meses de vida, a criança experimenta movimentos repetidos associados aos sentimentos de prazer e de recompensa, desencadeando o mecanismo central da aquisição de um movimento novo. Aí se desenvolvem os padrões fundamentais para chegar à marcha.

 

Alguns estudos recentes relatam que aos 10 meses a criança permanece em pé com as pernas abertas e estabiliza-se agarrando em objetos, e às vezes dá poucos passos, apenas ao longo dos móveis próximos com os quais está em contato. Nessa fase o bebê começa a se equilibrar na posição ortostática (em pé) e assim se prepara para o início da marcha, evoluindo da permanência em pé para sem auxílio de um apoio. É a postura intermediária entre o começo da fase de equilíbrio e da marcha, quando o centro de gravidade começa a se ajustar para os primeiros passos.

 

Ocorrem compensações necessárias, como uma base de sustentação alargada, movimentos irregulares e assimétricos para que ocorra um ajuste gradual de ação muscular e do equilíbrio, permitindo a postura ereta e posteriormente a deambulação.

 

A marcha pode ser considerada o mais comum dos movimentos de um indivíduo, mas apesar de um gesto rotineiro, constitui-se em um dos mais complexos e integrados movimentos realizados pelo ser humano.

 

A marcha normal abrange três fases: a de apoio, em que o corpo se encontra sujeito a uma instabilidade significativa; a de balanço, na qual os dedos do pé tocam o chão; e a de apoio duplo, que é a fase de maior estabilidade.

 

Foto: Divulgação.O corpo engloba pontos considerados determinantes na marcha, tais como o centro de gravidade do corpo, a inclinação e a rotação pélvica e os movimentos conjuntos entre quadril, joelho e tornozelo. Esses fatores estão diretamente ligados tanto ao aumento quanto à diminuição do comprimento funcional dos membros inferiores, refletindo-se diretamente na funcionalidade e na qualidade da marcha. As ações musculares de estabilizar, acelerar e desacelerar agem em conjunto para a realização da marcha, acrescentando-se que a condição psicossocial do indivíduo também influencia e altera a marcha.

 

Características como abdução e rotação externa de quadril, hiperextensão de joelhos e pés pronados são alterações estruturais que dificultam o ato de andar e de equilibrar-se em dois pés, ocasionando atraso na aquisição da marcha.

 

Mesmo estando entre os atos motores mais automatizados, a sequência de eventos que geram o andar é altamente repetitiva de ciclo após ciclo e também entre diferentes indivíduos. Tal regularidade permite que se estabeleçam critérios práticos para a distinção entre padrões normais e patológicos, bem como para a discriminação das mudanças qualitativas causadas pelo desenvolvimento do indivíduo.

 

O atraso no desenvolvimento motor é facilmente identificado, visto que crianças típicas começam a deambular por volta dos 13 meses, podendo variar de 10 a 15 meses de idade. Após os 15 meses, se a criança não apresenta iniciativa na realização dos movimentos que antecedem a deambulação, considera-se que tenha uma dificuldade em seu desenvolvimento. Cabe então oportunizar experiências à criança que estimulem o seu desempenho motor, reações posturais de equilíbrio e de estabilidade, para corrigir o mais precocemente possível a fim de não originar um atraso ou uma dificuldade no seu desenvolvimento.

 

Nilton Ribeiro. Foto: Divulgação.Nilton Ribeiro Junior

Fisioterapeuta pediátrico no Centro de Atendimento a Criança (CAC). 

Fisioterapeuta responsável pelo GEPE (Grupo de Estimulação Precoce Essencial) e pela avaliação Neuropsicomotora e acompanhamento de bebês de risco. 

Fisioterapeuta no Centro de Especialização e Reabilitação de Araxá-MG/APAE (CER)

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