CBMM dá os primeiros passos para a produção de superímãs

Foto: Jornal O Globo.Um cubo de 3 centímetros de lado foi provavelmente o primeiro ímã artificial construído com elementos minerais conhecidos como terras-raras sem nenhuma participação chinesa. Ele foi feito no Brasil, recentemente, em experiência laboratorial que integrou diversas instituições públicas e privadas, desde a extração do mineral, passando pelo isolamento das terras-raras do minério bruto, a formação de metais e ligas, até a composição do superímã – como é chamado o ímã artificial.

 

“Já está grudando, quase como o dos concorrentes!”, escreveu, em e-mail a colegas do projeto, Paulo Wendhausen, professor à frente do Grupo de Materiais Magnéticos (Magma) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O experimento exige aperfeiçoamentos, mas foi um passo na conquista de tecnologia indispensável para a criação de produtos complexos como smartphones, carros elétricos e turbinas eólicas. Esse mercado pode significar US$ 1 bilhão ao ano em um horizonte próximo e uma maior autonomia e competitividade da indústria nacional, explica o professor Carlos Alberto Schneider, da Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi).

 

A base desses ímãs são as terras-raras, que existem no Brasil, são conhecidas há tempos, mas nunca antes isoladas dos minerais, como fazem os chineses, que dominam a tecnologia. Só no passado mais recente, foram feitos aqui investimentos para isolar esses elementos. A CBMM, companhia localizada em Araxá (MG), já investiu R$ 80 milhões na planta-laboratório para separar as terras-raras de outros elementos de sua jazida, como o ferronióbio, que já é vendido mundo afora.

 

O processo envolve elementos químicos e processos físicos para separação dos componentes, resultando nos elementos terras-raras isolados, com aspecto de areia. Segundo Tadeu Carneiro, presidente da CBMM, como o pirocloro extraído em Araxá traz o nióbio junto com as terras-raras, parte do custo de investimento já é coberto pelo primeiro minério, que tem mercado cativo, o que barateia sua extração. – O custo de extração é negativo. Ele está mesmo é na tecnologia – disse Carneiro.

 

Apesar da conquista, a construção de superímãs a partir de terras-raras no país é uma tentativa que avança a passos lentos desde 2010. A iniciativa envolve governo federal, o estado de Minas Gerais e a Certi, em parceria com a UFSC e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), de São Paulo.

 

“É uma felicidade saber que chegamos ao objetivo, pelo menos do ponto de vista laboratorial: “Temos um ímã feito com terras-raras brasileiras. Com monazita de Araxá, com concentração e separação da CBMM, com redução no IPT e produção do ímã na UFSC. Sinto orgulho”, escreveu ao grupo Fernando Ladgraf, diretor-presidente do IPT.

 

Essas conquistas despertaram o interesse da Alemanha, cujas indústrias consomem superímãs e que assinou acordos com o Brasil para que elas tenham acesso a esses insumos tecnológicos. Para saltar do laboratório para as indústrias e abocanhar um mercado de US$ 4 bilhões por ano dominado pela China, o processo demandará investimentos. Empresas como WEG, Siemens e Bosch acompanham as experiências brasileiras na elaboração de superímãs.

 

Para o governo brasileiro, o nióbio e as terras-raras são considerados “minérios do futuro”, que deverão ganhar políticas específicas. Segundo Miguel Nery, diretor da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), o governo vem trabalhando para promover a integração da cadeia das terras-raras no médio prazo para enfrentar o monopólio chinês.

 

– Investimentos públicos combinados aos privados têm permitido o desenvolvimento de tecnologia e produção de metais e, brevemente, isso levará aos ímãs em si – disse Nery.

 

Em Araxá, encontra-se a mina de pirocloro, o insumo de onde se extrai o nióbio e as terras-raras. Detentora de 80% da produção de ferronióbio do mundo, a CBMM sentiu o impacto da crise no preço do mineral. No ano passado, o lucro da companhia caiu mais de 10% em termos reais em relação a 2014. Mas essa crise não impediu a empresa de elevar o investimento em tecnologia – referente a 2% de seu faturamento de R$ 4,97 bilhões em 2015 – para isolar da produção de sua mina de 4 mil metros as terras-raras.

 

– Somos uma empresa de mineração, mas nosso negócio está na tecnologia – disse o presidente da CBMM, empresa controlada pelo grupo Moreira Salles (70%) e com sócios asiáticos (30%) que não têm acessos aos seus segredos industriais. Em breve, deverá ser concluído projeto para construção de uma fábrica com custo estimado de R$ 80 milhões e capacidade de processar até cem toneladas de ímãs por ano. A fábrica deverá começar a operar parcialmente em 2018, explica Schneider, da Certi.

 

– Explorar esses ativos que temos disponíveis e processá-los, agregando valor, gera empresas e empregos para fazer carros elétricos, turbinas eólicas, entre outros produtos para os quais, hoje, o mundo depende dos chineses – disse Schneider. – Essa é uma questão de bilhões, que desperta sonhos na Alemanha, nos EUA e em tantos outros países.

 

Segundo Carneiro, foi com investimentos em pesquisa que o Brasil se tornou monopolista na produção de nióbio no mundo, com 90% do mercado, apesar de haver outras 85 jazidas já identificadas em três continentes. As vantagens do mineral, porém, já despertam a cobiça estrangeira. A maior mina brasileira de nióbio e terras-raras concorrente da CBMM, em Catalão (MG), foi vendida em abril pela AngloAmerican para a indústria chinesa CMOC. O negócio, que envolveu mina e plantas de processamento, foi de US$ 1,5 bilhão.

 

– O nióbio é o único produto mineral em que o Brasil é campeão mundial, porque toda a tecnologia foi desenvolvida a partir daqui – disse José Fernando Coura, presidente do Instituto Brasileiro da Mineração (Ibram).

 

Fonte: Danilo Fariello/Jornal O Globo

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